12 fevereiro, 2011

SEM TÍTULO - CAPÍTULO I

O ínicio dos anos noventa foram muito conturbados, confusos e difíceis na minha vida. Em junho de 1992 com os negócios indo de mal a pior, em razão da recessão econômica que o governo Collor colocara o país, comecei a sentir dores abdominais muito fortes e como necessitava de descanso fui ao Rio de Janeiro passear e aproveitar para fazer um check up.
Dia 15 de junho já de posse do diagnóstico das dores abdominais, estava com o Sami e a esposa no Galeão bebendo uma dose de Campari quando olho o relógio e vejo que era hora de ir para a sala de embarque, nos despedimos. Fico alí na sala de embarque sentado inerte pensando em tudo, pensando e revisando toda a minha vida até alí e nisso perdí a noção de tempo e espaço, nada via, nada ouvia e quando desperto desse transe e vou buscar informações sobre o meu embarque, para minha surpresa os funcionários da empresa aérea já haviam concluído o check in e as portas do avião já cerradas, explico aos atendentes que já me encontrava alí na sala de embarque a algum tempo e que não ouvira em momento algum chamada para o meu vôo nem mesmo aquelas chamadas especiais que fazem para os passageiros retardatários, mas como resposta me disseram sentir muito e que procurasse reembarcar noutro vôo, já saindo da sala de embarque o mesmo funcionário me chama e pede que corra até o finger pois o avião não havia ainda sido autorizado a taxiar e o piloto autorizara minha entrada na aeronave.
Foi o pior vôo de toda a minha vida, as lágrimas me desciam pelas faces durante toda a viagem, tinha então trinta e dois anos e o diagnóstico médico me dava não mais que três meses de vida. O diagnóstico havia concluído  como tumor linfático de hodgkins em estado avançado na região abdominal. Dentro do avião tudo passava na minha mente com a rapidez de um furacão, revirava mentalmente minha vida desde o início quando ainda criança, nessa fase me vem sempre a memória a minha primeira lembrança da vida, com quatro anos de idade passeando na calçada em frente de casa em um velocipede azul marinho em forma de avião, desde criança sonhava em ser piloto de aviões era minha paixão, me vinha a mente meus feitos, meus defeitos, minhas tristezas, meus sucessos, minha família, meus amigos, meu trabalho, o que eu não poderia mais fazer a partir deste momento e o que eu deveria e teria que fazer.
Por dois meses nada fiz a não ser cuidar das coisas práticas, vender a empresa, comprar apartamento, fazer testamento e esperar, era uma fortaleza não deixei ninguém saber o que se passava comigo, mas quando me trancava no meu quarto desabava, chorava, me revoltava mas ao final me recompunha, fazia tudo tão bem feito que ninguém nunca percebeu absolutamente nada. Mas no terceiro mes e o que seria meu último de acordo com o diagnóstico, fui me despedir do meu grande amigo- médico Medeiros e lá no consultório da Rua Potengí não contendo as emoções e chorando copiosamente, lhe relato  minha história, ele então pega o telefone e liga para uma amiga Oncologista  explica-lhe a situação e me pede para ir vê-la. Acabo finalmente por ceder  e resolvo então seguir as ordens da médica e do meu irmão Medeiros, refaço os exames, mas o diagnóstico se repete apenas com uma diferença o estágio da doença, segundo a Oncologista em Natal a doença era perfeitamente tratavel e o sucesso dependeria em grande parte da minha força de vontade e do tratamento quimio e radioterapico evidentemente, sinceramente não acreditara, achava que era mais uma tentativa deles de me fazer reagir psicologicamente mas mesmo assim segui as ordens, tempos difíceis aqueles idos de noventa e dois. E o terceiro mes passou e não foi daquela vez que morrí. Mas não foi fácil, um ano inteiro de quimio e radio quantas vezes pedi para morrer pois  os efeitos colaterais eram insuportáveis mas acabei sobrevivendo e tendo que administrar minha pobreza material, gastei tudo que tinha, perdí tudo e tive que recomeçar novamente do zero, mas estava vivo e mais maduro para encarar a vida com muito mais gana e coragem.
Nessa época, ainda durante o tratamento reencontrei os pais de um amigo do Rio que estavam morando em Natal, Itamar e Lourdes ele funcionário aposentado do Banco do Brasil e sua fiel companheira de jornada ambos septuagenários e me levaram para o Centro Espírita kardecista Casa de Lucas, me lembro que resistí muito e por duas razões primeiro porque o espiritismo não era minha religião e segundo porque achava hipocrita buscar Deus somente porque me restavam poucos dias de vida na Terra, mas acabei cedendo e fui com eles e minha vida começou a mudar....
Anos depois quando tive meu primeiro infarto e naquela época, em 1995, infartar ainda era algo extremamente grave, confesso que  não sentí o mesmo choque que sentira em 1992, parece que essas experiência limites vão nos tornando mais frios e calculistas.
Itamar me apresentou a Rogério e pediu-me que agendasse com ele uma conversa, Rogério era naquela época gerente da Caixa Econômica de Natal, feito isso pra lá me dirigí e aí tive uma lembrança de um encontro anterior com o Rogério alí mesmo na Caixa e lhe reportei mas ele nada disse e o que havia sido isso? Anos antes havia me dirigido para a Caixa verificar a possibilidsade de pleitear um empréstimo para minha empresa e quem me atendeu foi o próprio Rogério e durante a entrevista disse-lhe que tinha uma forte sensação de já conhecê-lo, perguntei-lhe se havia morado no Amazonas ou no Rio de Janeiro e ele me disse que não, e ficara aquela sensação aguda de já conhecer ou já ter estado com aquele ser ( deja vú), anos depois quando desse novo encontro lhe lembrei daquele primeiro encontro mas ele não se recordava. Nesse encontro a partir de certo momento percebo uma sutil diferença na postura do Rogério falava-me como se fosse uma outra pessoa, mas tudo muito sutil talvez outra pessoa não tivesse percebido a diferença e nesse instante ele me diz " Flávio voce é um espirito muito velho e está muito cansado!" e era verdade aquilo me atingira como um dardo que é jogado e acerta exatamente o alvo, eu estava muito cansado, depois me diz " Flávio bilhões de seres neste planeta tentam diáriamente parar de fumar cigarros e não conseguem e voce numa decisão de segundo o fez com sucesso, quero dizer-lhe que a vontade é a base de tudo na vida, detalhe Rogério nada sabia sobre minha vida e aquela foi a primeira de inúmeras conversas que tive com ele cada uma mais fantástica que a anterior.
Eu esperava ansiosamente pelas segundas-feiras o dia em que nos reuníamos alí naquela casinha simples no ínicio da ladeira da Avenida Rio Branco, no começo participava sempre da primeira fase da reunião que era aberta mas logo não tardou fui convidado por Itamar e Lourdes a continuar e participar da segunda fase das reuniões onde apenas parte daquelas pessoas participavam numa segunda sala com bancos encostados nas paredes da sala e uma enorme mesa  onde acomodavam-se ao seu redor os membros mediuns. Lembro-me de como ficava nervoso e tenso afinal tudo aquilo era muito novo para mim, mas quem tinha os dias contados na Terra aquilo era superável.
Certas reuniões eu era levado até um pequeno quarto com uma cama onde alguns mediuns membros da reunião para alí se dirigiam e juntos faziam intervenções no meu corpo, até hoje eu não sei dizer o que acontecia exatamente ali mas foi determinante no meu processo de cura, isso eu afirmo com toda a certeza deste mundo. Com o passar do tempo essas intervenções foram se reduzindo e quando não aconteciam me geravam estresse, pois acreditava que elas eram a razão da minha recuperação. Mas ao mesmo tempo naquela segunda parte das reuniões já não ficava tenso e participava atentamente, a tudo ouvindo, a tudo vendo e a tudo tentando perceber.
Sentia no corpo as energias que emanavam dependendo do tipo de personalidade que alí incorporava nos médiuns como também com o passar do tempo apesar das deficiências que meu corpo apresentava o que impedia-me um desenvolvimento mediunico mais intenso, conseguia sentir odores inexplicáveis, ver de olhos fechados coisas, luzes e imagens fantásticas que de olhos abertos não conseguiria. Quantas viagens mentais-mediunicas não realizei e presenciei e muitas delas aqui serão no momento oportuno relatadas em detalhes.
Nunca presenciei tanta coisa maravilhosa na minha vida como naquelas reuniões seja como agente passivo quando era tratado ou como um atencioso e participante ouvinte.
Foi alí na casinha da Rio Branco que conhecí Jabes a quem nunca mais esquecí bem como Medéia a quem até hoje tenho fecunda admiração, outros como certas personalidades históricas marcantes que eram pescadas dos umbrais e levados para locais de recuperação imaginava eu naquela época que via tudo sob uma forte ótica espirita.
Rogério, Itamar, Lourdes,José de França, Oneida, Marcelo, Fernandinho e tantos outros a quem não recordo os nomes mas tenho em minha mente gravadas as suas imagens humanas que formavam o circulo da mesa e tantos outros como eu que formavam o circulo dos bancos do segundo círculo Ricardo Luçena, Itálo, Lucinha, e tantos outros. Minha mente fervilhava pois sabia que alí havia muito mais coisas acontecendo do que podia imaginar e isso me levava a um excitamento incomensuravel e muitos de nós da segunda corrente conversávamos e especulávamos sobre tudo inclusive de algumas idiossincrasias, de informações que não batiam conm nenhuma lógica mas esses questionamentos ficavam apenas limitados ao pequeno grupo da segunda corrente.

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