12 julho, 2011

NETANIAHU FOI A PERNAMBUCO

Noite do dia dez de Fevereiro de 1999, exausto depois de um longa e árdua jornada, chego em casa dispo-me e faço uma longa e relaxante ducha com água morna, sem pensar em nada deixo a água e o barulho que ela fazia ao cair sobre meu corpo e o piso do banheiro anestesiar minhas sensações levando-me ao esquecimento e relaxamento totais. Após o banho faço um pequeno lanche e vou para a cama dormir.
13 de Março de 1631, aos 13 anos estava eu ali na rua que margeia o canal da princesa brincando com meu amigo Baruch, quando ouço um grito Nataniaaahuuu, era minha mãe chamando-me de volta à casa, ao passar pela porta de entrada de nossa casa percebo a presença de visitantes e automaticamente sem saber explicar como e porque pressentia que eles tinham algo a ver com minha vida. Enquanto Moisés, meu pai, confabulava com o chefe daquele grupo minha mãe levava-me ao quarto para escolher minha roupa e obrigar-me a rapidamente fazer-me apresentável, minutos depois já devidamente vestido para aquela ocasião desço até a sala e mesmo sentindo-me protagonista do que estava acontecendo ninguém me dava a menor importância era como se estivesse completamente invisível, até que meu pai finalmente olha em minha direção e anuncia e me apresenta o meu futuro sogro.
Sem saber o que fazer, cumprimentei-o baixando levemente a cabeça em sua direção e como meu pai ele também era rabino, após essa apresentação e as preces e bênçãos sou liberado da sala e corro para a  rua para procurar meu amigo Baruch  e contar-lhe, o que para mim era uma tragédia, meu mundo iria mudar radicalmente.
Baruch então pacientemente  dizia para acalmar-me e explicar o que acontecia, tomei fôlego e contei-lhe o que acontecera esta manhã a poucos minutos em minha casa, a presença do meu futuro sogro que viera acertar os detalhes do meu casamento e o acerto do dote que receberia. Baruch de família rica e bem mais velho que eu ainda não tinha se deparado com isso e aproveitava para estudar, não apenas a Torah e o Talmud mas estudava Ciência e Filosofia e eu que estudava apenas a Torah e o Talmud e treinava para seguir a profissão de ourives ficava horas e mais horas sentado ouvindo encantado o que Baruch me falava daquele estranho mundo que eu desconhecia e ficava imaginando como o seria.
Semanas depois fui apresentado a minha noiva. Dez anos mais velha, feia e paraplégica, chamava-se Rivka, era pequena e muito magra, o que tornava visível a sua extrema fragilidade, tinha longos cabelos negros e dois olhos azuis de uma beleza que não combinava com o restante da sua aparência física, eram os olhos mais lindos que que eu havia visto em toda a minha vida. Era como se Deus tivesse presenteado aquele corpo desgraçado pela doença com duas jóias de inestimável valor e beleza.   Naquele instante lembro-me bem, meu mundo desabou pela segunda vez em poucas semanas, perguntava-me por que Deus me impunha tanta provação, mas não ousava falar em voz alta meus pensamentos nem muito menor rebelar-me contra a decisão do meu pai. Oh Deus! terei de passar o resto de minha vida ao lado dela? por que? O que eu fiz para merecer tamanho castigo? A única coisa boa disso tudo pensava " é o dote que é suficiente para iniciar meu próprio negócio e sair daquela quase miséria em que vivíamos e quem sabe viajar para bem longe da Europa, para uma terra quente e tropical na América, não parava de pensar nisso o que fazia me esquecer por alguns minutos a minha triste sina: casar com uma mulher inválida e destituída de qualquer beleza física.
Casei-me no dia 22 de Março de 1632 na Grande Sinagoga de Amsterdam e ao contrário dos casamentos que havia participado o meu era triste, olhava no rosto dos convidados e era como se dissessem: "pobre coitado casou com um estorvo". Durante alguns dias fui a chacota da judiaria de Amsterdam.
Continuamos morando na casa dos meus pais por algum tempo enquanto minha mãe treinava uma ama para cuidar do meu futuro lar e eu concluía meus estudos na Yeshivah e aprimorava meu treinamento como ourives, não passava um único minuto que eu não acalentasse e sonhasse com a América.
Meu querido Baruch, que fora meu padrinho de casamento, se destacava cada vez mais com seus escritos a quem eu sempre tinha a honra de ouvir-lhe a cada nova obra, a cada novo pensamento. Achava-o brilhante, o amor que por ele sentia era imenso, éramos irmãos de pais diferentes, mas uma coisa preocupava-me, suas ideias, seus pensamentos e teorias filosóficas logo lhe trariam problemas junto ao Rabinato e aos estudiosos da Lei, mas ficava calado em momento algum externei-lhe minhas angústias e medos do que poderia acontecer.
Tratava minha esposa com carinho, afeto e respeito mas nunca aprendi a amar-lhe com o amor dos homens.
Baruch me dizia, - Netaniahu "preste atenção no Tempo e Espaço usando sempre uma medida para essas duas extensões, a medida é usada para explicarmos as coisas e então aprenderá e se aliviará dos encargos que Deus te reservou nesta vida"-, muito do que ele me dizia me ajudava a ver a vida de forma diferente, e foi responsável pela grande admiração que brotou no meu espírito para com minha companheira inválida e cada dia mais bela aos meus olhos. Numa outra ocasião me disse: Netaniahu, "Deus tem muitas Leis que estão acima do intelecto humano, e quando esse as vê, parecem ser milagres. Deus está acima da natureza percebida pela razão humana". Esses e outros comentários foram fundamentais para acalmar o meu espírito, naquilo que eu considerei por longos anos minha maior tragédia, meu casamento.
No ínicio dos anos trinta meu sonho de ir viver na América começava a se esboçar real, Havíamos conquistado da Espanha o Oriente da América Portuguesa - O BRASIL -.
No outono de 1633 embarcava sozinho para Pernambuco no Soberano dos Mares. Dois meses depois estávamos em frente ao litoral de Pernambuco nos aproximando do Recife, a sede do governo e maior cidade do Brasil Holandês, o cheiro do mar verde repleto de algas, o calor do verão tropical sempre acompanhando da intermitente brisa alísea era impressionante, eu de olhos fechados sentindo a tudo como se fosse algo sólido e material, que eu podia tocar com minhas mãos e corpo. O céu de um azul que eu jamais havia visto em toda minha vida, quanto mais nos  aproximávamos  da terra firma podia perceber a vegetação luxuriante, uma imensidão de palmeiras esvoaçantes bordavam aquela costa de areias brancas, aquilo era realmente o paraíso.
Ao descer do navio e já em terra firme me aguardava Joab o Rabino do Recife,  falávamos em português assim como a grande maioria dos judeus holandeses que haviam emigrado de Portugal para a Holanda quando das grandes perseguições movidas pela Igreja e o Estado Português. Com meus baús já no cais embarcamos numa pequena canoa para * o outro lado da cidade  onde viviam os judeus, de posse dos pertences necessários para minha instalação na cidade, adentro naquela que seria por alguns anos minha casa em Pernambuco, tinha três altas portas no andar terreo, duas delas davam acesso a sala que transformei na minha oficina e a terceira abria-se para um corredor por onde acessava a parte intima da casa, onde tinha duas grande salas contíguas com um pé direito alto e com as velhas telhas portuguesas amostra, os quartos de dormir eram três e ligados por portas de madeira, eu e Rivka dormíamos desde o inicio do casamento em quartos separados pois ela dormia sempre na companhia da sua ama,  e assim foi por toda a nossa vida, Depois da sala onde fazíamos nossas refeições a cozinha e um quintal imenso onde tinha uma majestosa jaqueira e os quartos dos nossos escravos Donana e Bento. No andar superior a casa tinha mais três quartos, sala, cozinha e uma sala de banho e privativo que alugava à WIC- Companhia das Indias Ocidentais, já que nessa época a população da cidade crescera rapidamente e não havia casas suficientes para todos e os alugueis eram então uma ótima renda.
Os escravos foram comprados pelo Rabino Joab a meu pedido quando ainda me encontrava em Amsterdam, de maneira que quando cheguei a Pernambuco muita coisa já estava organizada. Logo tratei de montar minha oficina e o trabalho logo passou a fazer parte da minha rotina diária, nos primeiros tempos produzia muitas alianças em ouro  mas com os anos e a chegada da corte do stadthous Mauricio os trabalhos foram sendo diversificados, nas muitas viagens que fiz ao sertão dos tapuias na Capitania do Ceará e do Rio Grande descobri a existência de jazidas de água marinha e alexandrita exploradas pelos nativos brasileiros em seus colares. Com o acerto para a aquisição das pedras passei a produzir peças mais elaboradas, colares, brincos, gargantilhas,pulseiras e anéis que negociava no Recife e depois na própria Bahia através dos meus contatos com agentes comerciais cristãos novos residentes na cidade de São Salvador. Essa inquietação em conhecer a terra veio a me favorecer enormemente, os contatos que fazia em muitas das viagens que fiz ao Brasil português foram-me todos de grande utilidade.  Adorava as grandes expedições que fazia nos arredores da cidade nas horas livres na companhia do meu amigo Rabino Joab e Bento meu escravo. Desde a minha chegada em 1633 até os idos de 1640 a vida foi muito difícil para todos na cidade e nos domínios, embora tivéssemos o domínio da Terra ele ainda não estava completamente assegurado, foram anos de guerra e apreensão, dominávamos a faixa litorânea e poucos quilômetros adentro mas em terras de cana de açúcar e para manter o país e sua gente era necessário mais terras e gente para o cultivo de alimentos e produção de carne e até então não contávamos nem com um nem com outro além do mais sabíamos que os luso-brasileiros não se absorveriam a nova situação politica, mas restava sempre a hipótese de se conseguir uma sociedade multicultural:  luso-brasileiros que dominavam a economia agrária, nós judeus o comércio e os pequenos negócios de manufatura e os neerlandeses no comando politico da Terra .
Aquela natureza exuberante, o gentio de diferentes raças e cores, os cheiros da terra e a exuberante mata me hipnotizavam,  mas à noite minha mente sempre voltava a Holanda onde se encontrava  minha doce esposa, que apesar de toda ausência de beleza física e de um corpo perfeito aprendera a amar-lhe. Apesar de todas as tristezas que a vida lhe reservara, ela possuía o olhar mais doce e terno e belo que eu pude encontrar nessa minha vida, o seu carinho e atenção para comigo eram enternecedores, ela da cama, de tudo cuidava e dirigia, nada faltava na casa, tudo era impecavelmente limpo e organizado suas ordens eram seguidas e cumpridas por Donana e Bento que com tanto amor e zelo lhe mimavam os dias e tinha Rute sua ama e companheira de todos os momentos, que além de cuidar de Rivka, fazia cumprir  as suas ordens. Quatro meses depois da minha chegada no Brasil, Rivka e Rute partiam de Amsterdã em direção a Pernambuco.
*Boas tardes Rabino, baruch ha Shem!
 Baruch ha Shem Natan, como tens passado?
Estou bem com a graças do senhor, mas diga-me o que o traz aqui?
Vim saber de ti se poderei indicar teu nome para a nova composição do conselho do Mahamad* e te expor um pouco mais da nossa situação aqui no Recife meu filho.
Sabes que podes contar comigo para o que necessitares meu caro Rabino e sou-lhe todo ouvidos.
Natan desde que obtivemos a autorização para imigrar ao Brasil e cá se instalar muitas coisas mudaram, como somos bilíngues e falamos o português somos fundamentais nos negócios da WIC pois funcionamos como o elo dessa engrenagem colonial e isso fez neutralizar os radicalismos dos Calvinistas fundamentalistas que nos odeiam tanto quanto os cristãos portugueses e temos cá liberdades que mesmo na Holanda não possuímos e é em razão disso que vou propor ao Mahamad a compra de uma casa para instalarmos nossa Sinagoga mas temos oposição dentro do Conselho que alega que atrairia a ira dos cristãos portugueses e dos Calvinistas.
De fato Rabino concordo que isso atrairá a ira deles mas como dissestes o governo precisa da nossa presença aqui e creio que podemos obter essa vitória, podes contar comigo tanto para o Mahamad como para a abertura da Sinagoga.*
Foram anos de paz e tranquilidade e muita felicidade nas nossas vidas até que Portugal recuperou sua independência e os brasileiros se revoltaram contra o domínio holandês, a guerra que se estendeu por alguns anos nos trouxe muita privação.
O Tratado de paz celebrado por Lisboa e Amsterdã nos garantiu o direito de retornarmos à Holanda e de vender nossos bens antes de partirmos, eles na realidade nos foram roubados pelos portugueses e brasileiros sequiosos de vingança, éramos judeus e nada podíamos fazer contra a sanha fanática da Inquisição. Embarquei Rivka com Rute e Donana para a Holanda e aguardei com Bento no Recife enquanto tentava vender o pouco que nos restara. Durante esses meses turbulentos Bento foi meu fiel companheiro.
Acordo com o alarme do despertador, olho o relógio: Eram sete horas do dia 11 de Fevereiro de 1999.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom Hebron,
O conto é como o início de um livro ou a sinpse de um filme que liga com detalhes o sofrimento, a beleza da vida.
Parabéns
R.Bagdonas