08 novembro, 2009

VIAGENS BIOGRÁFICAS

Em 1981 saímos de Haogen em um ônibus que nos levaria até Sharm El Sheik no canal de Suez, quando a Península do Sinai ainda era terrítório israelense. Era inverno e fazia frio mas estavamos todos muito excitados em descer finalmente ao deserto onde tantas histórias marcantes se sucederam ao longo destes milênios que marcam a civilização humana ocidental, afinal aquela península foi rota de tantas tragédias e de tantos épicos humanos, foi alí que Deus entregou a Moisés as tábuas da Lei, foi alí que foi forjada a ferro, fogo e fome a nação hebraica a ancestral do moderno Estado de Israel, foi alí nos inúmeros mosteiros esquecidos e escondidos nas montanhas coloridas do Sinai que se construiu parte do Cristianismo, mas também nessas terras secas e pedregosas tantos exércitos passaram em busca de poder, em busca da morte, das riquezas provenientes das conquistas territoriais, por alí passaram, faraós, reis Hititas, Sumérios, Babilônios, Medas, Persas, Israelitas, Gregos, Romanos, Árabes, Turcos Otomanos, Ingleses, Egípcios e Israelenses. E para aquele cenário estava eu indo, dentro daquele ônibus cheio de estudantes na maioria de origem americana, no ínicio parecia divertido escutar as bobagens que eles falavam, as risadas por piadas sem graça, o constante Bull Shit que eramos obrigados a ouvir. Atravessamos a planície costeira do Sharon, passamos por Tel Aviv " a bolha", uma hora depois estavamos já em pleno deserto do Neguev em direção a Beer Sheva a maior cidade do Sul de Israel, e onde mais tarde iria morar e estudar na Universidade Ben Gurion. Esse  deserto é pontilhado por ilhas de verde resultado da vontade e capacidade humana em modificar a natureza para atender sua sobrevivência, haviam trechos imensos que se estendiam por quilometros e mais quilometros de plantações de girassóis, pomares de macieiras, de abacates, de pepinos, e campos belíssimos de trigais já dourados balançando ao vento como se fossem ondas no mar. Depois de Beersheva adentramos no deserto do Aravá (do amor em hebraico) descendo mas para o Sul rumo a Eilat nas margens do Mar Vermelho e a um passo da fronteira da Jordânia naquela época em estado de guerra com Israel, ficava imaginando eu alí tão perto, em pleno palco de guerra!
O deserto do Sinai é um dos lugares mais belos deste planeta, altas montanhas que ao longe tornam-se coloridas com o bater da luz do Sol em suas escarpas secas e duras, margeando a costa recortada do mar Vermelho que é de um azul belissímo e uma estreita planície arenosa onde se formam os ínumeros acampamentos de beduínos. Passamos ao largo de Nueba que era aquela época um famoso balneário israelense e campo de nudismo, repleto de turistas descolados de toda a Europa, corpos nús, bronzeados ou avermelhados que é a palavra mais apropriada para aqueles corpos brancos de Europeus escandinavos que se deleitavam com o sol, a praia e os  cigarros de haxixe, vendidos pelos beduínos que não usavam camelos mas carrões de seis e até oito portas (os Sherutim, carros de lotação) Mercedes Benz. Aquilo para mim era impressionante, eu que havia saído de um país extremamente fechado comercialmente e onde era raro ver um Mercedes Benz de quatro portas, me deparar com esses carros fazendo lotação nas areias do deserto era algo que me fazia rir muito. Paramos num acampamento Beduíno nas margens do Mar Vermelho chamado Dahab (ouro em árabe), o lugar mais fantástico que já estive em toda a minha vida! Era simplesmente encantador poder estar alí!
Na beira da praia uma fileira imensa de pequenas cabanas construídas com folhas de palmeiras de Tâmara cortadas alí no próprio oásis e alugadas aos gringos mochileiros que lotavam aquele lugar( eu era um deles), andavamos todos nus, muitos fumavam haxixe, comíamos Pita, laranja, tâmaras e café turco. Quando alí cheguei foi amor a primeira vista, depois alí em Dahab me ocorreu mais uma outra das muitas coincidências que viví nesse período da minha vida. Falava com alguém que já não lembro mais quem era mas ao dizer-lhe que vinha do Kibutz Haogen a pessoa me dissera que havia também um casal alí que estivera nesse Kibutz e que pela descrição  de imediato descobrí tratar-se dos meus queridos amigos e irmãos Marco Bloch e Evelyn Levi, ele suiço e ela Marroquina/canadense e hoje também cidadã americana, eles são meus amigos até hoje e uma das grandes alegrias dessa minha vida,  não demoramos a nos encontrar naquele emaranhado de pequenas cabanas de palha (tinham no maximo 1.20 de altura), resolví então não seguir mais com o grupo de Haogen até Sharm El Sheik, isso era uma quarta-feira, o ônibus retornaria de Sharm na segunda-feira, combinamos então que eles na segunda-feira parariam na estrada próximo a um desfiladeiro e me aguardariam e/ou vice-versa, esse local marcado ficava seis quilometros do acampamento beduíno de Dahab onde eu estava numa daquelas choupanas na beira do Mar vermelho.
Numa dessas noites imaginando que do outro lado do Mar estava a Arábia Saudita, acendí uma vela a fixei num pequeno pedaço de madeira e deixei-a flutuando e sendo levada para dentro daquele mar calmo sem ondas e ventos, fiquei alguns minutos sentado na praia olhando a luz da vela se distanciando até não mais vê-la, magnífico!
Na segunda-feira cedo partí para o encontro combinado a poucos quilometros ví que o ônibus me aguardava, apenas uma curva e uma montanha me separavam do ônibus mas quando terminei a caminhada e cheguei ao local combinado  ônibus havia partido e eu largado no meio do deserto, sem lenço nem documento. Voltei ao acampamento no Oásis sem dinheiro, sem documentos, sem comida enfim sem nada a não ser a expectativa de mais emoções.
Fui até Di Zahav (ouro em hebraico), vilarejo israelense ao lado de Dahab onde havia uma delegacia de polícia israelense, fui até lá e expus ao policial o que acontecera, ele me ofereceu um café da manhã e disse-me para tentar carona até Nueba que de lá seria mais fácil chegar a Israel mas caso não conseguisse a carona voltasse que poderia ficar alojado na delegacia ou talvez viajar com alguma viatura policial. Fiquei alí na praia em Di zahav perto da delegacia quando me apareceu um jipe land hover,  o motorista desceu do carro e aproveitei para falar com ele, expliquei a situação e pedí-lhe carona mas ele me disse que não era possível pois tinha dois pastores alemães brabos dentro do carro, mas me ofereceu 100,00 shekalim para que eu pudesse viajar, fiquei com o endereço dele em Tel Aviv e assim que voltei pedí que me mandassem café do Brasil e dei-lhe de presente em gratidão ao que me fizera, somos amigos até hoje. Voltei a tarde à Delegacia e o policial me disse que podia viajar até Nueba no camburão da polícia, nunca foi tão bom e divertido viajar de camburão. Quando chegamos em Nueba mais uma surpresa o policial me dizia que podia dormir na Delegacia, jantar com ele e no dia seguinte seguir de Camburão até Eilat. E assim aconteceu.
Em Eilat depois dessas aventuras todas com os 100 shekalim que havia ganho do Rafi comprei dois felafelim e coca cola e uma passagem de ônibus até Tel Aviv, de lá outra para Netânia e finalmente ao Kibutz Haogen.
Hoje isso faz parte do meu tesouro.... A MINHA VIDA.

Um comentário:

Fabiana disse...

Caramba!!!
Isso é o que eu posso chamar de "criatura viajada"...
Altas histórias,hein Flavio?

Abraço!